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DNDi en la prensa

Correio Braziliense [10 de julio de 2009] 
Um século à espera de cura
Por Paloma Oliveto

No centenário da descoberta do mal de Chagas, organizações internacionais lançam campanha em prol do desenvolvimento de remédios eficazes para combater a doença 

Descoberta há 100 anos pelo pesquisador brasileiro Carlos Chagas, a doença que leva o nome do cientista ainda afeta mais de 7 milhões de pessoas na América Latina. No entanto, um século de mortes e sofrimentos impostos pelo Trypanosoma cruzi, protozoário causador do mal, não foram suficientes para convencer a grande indústria a desenvolver medicamentos e vacinas a fim de combatê-lo. Desde 1975, dos 1,556 remédios patenteados em todo o mundo, nenhum foi destinado ao tratamento do mal. Em 2005, dos US$2 bilhões investidos em pesquisas das chamadas doenças negligenciadas, por serem ignoradas pelos laboratórios, Chagas recebeu apenas 0,25% da fatia.

 

Para convencer a sociedade sobre a necessidade de investir mais no combate ao mal, as organizações não governamentais Médicos sem Fronteiras e Iniciativa Medicamentos para Doenças Negligenciadas (DNDi, na sigla em inglês) lançaram ontem, no Rio de Janeiro, uma campanha que vai durar o ano todo. “Depois de 100 anos, são poucas e ultrapassadas as opções de tratamento e, se compararmos com doenças como o câncer, as pesquisas estão numa situação crítica. É preciso sensibilizar tanto a população quanto os governos para essa doença silenciosa, pois as pessoas afetadas não têm voz”, alerta o diretor da DNDi para a América Latina, Michel Lotrowska.

 

Elas não têm voz porque o mal de Chagas atinge principalmente as pessoas mais pobres. Os vetores do Trypanosoma cruzi se reproduzem em regiões remotas, muitas das quais sem acesso aos serviços básicos de saúde. Eles infectam o homem a partir do contato direto com animais como porcos, galinhas e ratos. Os 28 milhões de habitantes da América Latina que estão sob o risco de serem contaminados, de acordo com médicos e cientistas, são incapazes de atrair os grandes laboratórios. O único medicamento disponível hoje no Brasil é o benznidazol, produzido no passado pela Roche e, agora, pelo Laboratório Farmacêutico do Estado de Pernambuco (Lafepe). A fórmula é da década de 1970 e tem eficácia razoável se a doença for diagnosticada precocemente. Tóxico, não pode ser usado por idosos e pessoas com baixa imunidade.

 

Dados da Organização Mundial de Saúde (OMS) mostram que, quando comparados à década de 1990, os casos humanos de infecção caíram pela metade. Já os óbitos tiveram um decréscimo ainda maior, passando de 45 mil para 12,5 mil. Isso se deve, principalmente, a campanhas preventivas, que renderam ao Brasil, em 2006, o certificado internacional pela interrupção da transmissão pelo mosquito Triatoma infestans. Originário da Bolívia, foi o principal vetor no passado. “O maior esforço concentra-se nas estratégias de prevenção, e isso é legítimo. Mas não é suficiente”, lembra a farmacêutica Gabriela Chávez, da Médicos sem Fronteiras.

 

Até porque o mal de Chagas costuma ser subnotificado. Na primeira fase, a doença assemelha-se a uma febre e pode levar décadas até chegar ao estágio crônico e irreversível. Segundo Gabriela, a demanda por novos insumos terapêuticos é enorme e inclui desde testes rápidos de detecção a vacinas, ainda inexistentes. “Também precisamos de medicamentos com menos efeitos adversos e com menor tempo de duração, efetivos para todas as idades e para todas as fases da doença”, lembra. Atualmente, a DNDi e o Lafepe desenvolvem um medicamento pediátrico contra o mal, que deverá entrar no mercado no ano que vem. A droga não terá patenteação e será vendido a preço de custo.

 

Surtos

 

Os pesquisadores também se preocupam com surtos recentes relacionados à ingestão de alimentos contaminados, como caldo de cana e açaí. Nos últimos anos, de acordo com o Ministério da Saúde, foram notificados mais de 500 casos, sendo 90% na região da Amazônia Legal, com prevalência de infecções (75%) no Pará. “Por conta disso, em 2007, foi elaborado um plano de intensificação das ações nesse estado, com o objetivo de diminuir a mortalidade, que era de aproximadamente 8%”, conta a ex-gerente do Programa Nacional de Controle da Doença de Chagas Soraya dos Santos.

 

O plano, que inclui ações educativas e de vigilância sanitária, já ocorreu nas ilhas e no centro urbano de Abaetetuba (PA) e, este mês, acontece em Belém. A idéia é atingir 5 mil pessoas. “Esse projeto, por sua complexidade e extensão, é uma experiência única no mundo, envolvendo equipe multidisciplinar de serviço e pesquisa”, afirma Soraya.


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