DNDi na imprensa
Folha press [08 de junho de 2005]
Doenças negligenciadas matam milhares
Por Folha press
Rio de Janeiro - Leishmaniose, malária, doença de Chagas e doença do sono. Em tempos de epidemia de obesidade, remédios para disfunções sexuais e tratamentos para calvície, enfermidades como essas parecem coisa do passado.
Somadas, no entanto, essas doenças matam milhares de pessoas a cada ano em todo o mundo. São enfermidades que acometem principalmente os países em desenvolvimento e suas populações mais pobres. Atraem cada vez menos o interesse da indústria farmacêutica, mais empenhada no investimento em pesquisa de medicamentos para males que atingem ou preocupam as classes mais abastadas, da hipertensão à celulite, da depressão ao desempenho sexual.
Segundo a organização não-governamental Médicos Sem Fronteiras, 90% dos recursos destinados a investigações farmacológicas são voltados a problemas que atingem apenas 10% da população mundial. E cerca de 35 mil pessoas morrem por dia de doenças que a indústria farmacêutica negligencia por serem pouco atrativas em termos mercadológicos.
Para reverter esse desequilíbrio, foi lançada ontem - no Rio de Janeiro, em Londres e em cidades da África e da Ásia - uma campanha internacional para responsabilizar governos e estimular o investimento público em remédios, vacinas e diagnósticos das chamadas doenças negligenciadas.
A Iniciativa de Medicamentos para Doenças Negligenciadas (DNDi, na sigla em inglês) é uma entidade que reúne institutos públicos de pesquisa de todo o mundo, entre eles, a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e o Instituto Pasteur da França, além da ONG Médicos Sem Fronteiras.
Mais investimentos
O objetivo da DNDi é estimular governos no investimento público para a pesquisa e o desenvolvimento de tratamentos que ajudem no controle das doenças negligenciadas (malária, doença do sono, doença de Chagas e leishmaniose). Segundo a iniciativa, Aids e tuberculose também necessitam de mais investimentos para responder às necessidades dos países em desenvolvimento.
"A DNDi se inscreve no grande processo de exclusão social do mundo de ontem. Uma dessas enormes injustiças é o caso das doenças que acometem os pobres e que não recebem atenção da indústria", disse ontem o presidente da Fiocruz, Paulo Buss.
"Muitas pessoas continuarão sofrendo e morrendo de doenças que afetam as populações pobres caso os governos não estipulem prioridades internacionais de pesquisa, adaptem suas políticas para as necessidades desses pacientes e disponibilizem recursos para essas necessidades", afirmou o diretor-executivo da DNDi, Bernard Pecoul.
A campanha da DNDi vai recolher assinaturas em todo o mundo por meio de seus sites (www.dndi.org.br e www.researchappeal.com) para um Petição Pública Internacional a ser entregue aos governos dos países desenvolvidos e em desenvolvimento e aos organismos internacionais. Entre os signatários do documento, estão 15 vencedores do Prêmio Nobel. A campanha fará também captação de recursos para financiar pesquisas de medicamentos para doenças negligenciadas.
Brasil
Para o secretário de Vigilância em Saúde, Jarbas Barbosa, o "Brasil não negligencia essas doenças". Segundo ele, só em 2004, o governo investiu mais de R$ 91 milhões em vigilância, prevenção e controle das chamadas doenças negligenciadas que acometem o país: malária, leishmaniose e doença de Chagas.
"Para leishmaniose, temos ações de controle e de tratamento. Para malária, cujos óbitos no país são mínimos, temos medicamentos para o tratamento da doença. E, no caso de Chagas, há um inquérito nacional da doença sendo realizado que aponta baixíssima positividade em áreas antes atingidas", disse. "Para nós, um avanço muito grande seria a descoberta de tratamentos mais rápidos para males como a tuberculose e a hanseníase. Os métodos atuais são lentos e acabam levando o paciente ao abandono do tratamento, o que favorece o crescimento da epidemia", disse.
Fonte: FOLHAPRESS