DNDi na imprensa
Correio Braziliense [5 de julho de 2009]
Doenças esquecidas
Por Paloma Oliveto
Por enquanto, os estudos concentram-se na manifestação cutânea da doença, que também existe na forma visceral, a mais devastadora. “Isso porque é muito difícil cultivar a Leishmânia donovani em animais de laboratório”, explica Barreto, referindo-se ao parasita.
Além de representar um avanço no tratamento – as drogas disponíveis hoje para portadores de leishmaniose são extremamente tóxicas -, a descoberta de Barreiro é relevante por se referir a um tipo de doença considerada negligenciada pela indústria farmacêutica. “É uma doença de pobre, e geralmente as grandes empresas não colocam os pobres nas suas agendas”, lamenta o cientista. Ele acredita que serão necessários esforços de governos e estatais para converter o resultado da pesquisa em medicamento para a população. “Não espero que seduza uma grande empresa”, reconhece. Um levantamento da organização não governamental DNDi (sigla em inglês para Iniciativa Medicamentos para Doenças Negligenciadas) mostrou que de 1975 a 2004, dos 1,556 remédios registrados no mundo, apenas 18 destinavam-se ao tratamento de doenças tropicais, como mal de Chagas e malária.
“São doenças totalmente negligenciadas pela indústria, ninguém tem grande interesse por elas, principalmente porque ocorrem mais na América Latina. Agora, com o fluxo de migrantes para a Europa, é que eles estão começando a se preocupar um pouco mais”, critica a médica Fabiana Alves, consultora da DNDi. “Tenho certeza que existem compostos promissores, mas o que falta é investimento”, diz.
Uma “doença de pobre” foi responsável pela maior dor da vida de Maria do Perpétuo Socorro Veríssimo dos Santos, 37 anos, moradora da Vila Rabelo, em Sobradinho II. Em 2006, ela perdeu a filha Renata, 6, para a leishmaniose visceral. Foi o último caso fatal em Brasília. “Só descobriram o que tinha depois que foi enterrada. Se tivessem lutado para saber o que ela tinha, minha filha estaria viva”, acredita.
A criança agonizou por seis dias. Ela gritava de dores, tinha febre alta, e não reconhecia ninguém da família. Foi levada a dois hospitais. “Em Sobradinho, nem colocaram ela na UTI. Só no hospital de Taguatinga é que a trataram”, relata. Na época, Maria estava grávida de oito meses e via Renata vomitar sangue sem que nenhum médico fornecesse o diagnóstico. “Se eu tivesse condições financeiras, venderia tudo para ela conseguir um bom atendimento.”
Ultrapassado
O mal de Chagas, descoberto há 100 anos pelo brasileiro Carlos Chagas, é outra doença negligenciada alvo de estudos na Amazônia. O pesquisador Adriano Andricopulo, da Universidade de São Paulo (USP), faz parte de um grupo de cientistas que identificou uma série de compostos naturais com potencial de combater a enfermidade. Entre os mais promissores, estão derivados do ácido anacárdico – encontrado na casca da castanha de caju – e as chalconas, extraídas de plantas que têm atividades antiinflamatórias, antivirais e antiprotozoárias.
O único medicamento disponível hoje no Brasil é o benznidazol, produzido no passado pela Roche e, agora, pelo Laboratório Farmacêutico do Estado de Pernambuco (Lafepe). A fórmula é da década de 1970 e, de acordo com a consultora do DNDi Fabiana Alves, tem eficácia razoável quando a doença e diagnosticada precocemente. O problema é que nem sempre é fácil reconhecer a infecção pelo parasita Trypanosoma cruzi. Na fase crônica, o mal de Chagas tem características semelhantes às de uma gripe. “Quanto mais o tempo passa, mais difícil é o tratamento e as chances de cura. Quando a doença instala-se no coração, já não há o que fazer”, diz. Nesta semana, a organização não governamental Médicos Sem Fronteiras vai lançar uma campanha mundial de combate à doença.
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