Home / Centro de documentação / DNDi na imprensa / [04-06-2010] Doença de Chagas afeta mais de 2 milhões de brasileiros

DNDi na imprensa

Jornal O Globo:
Descoberta há mais de um século, doença de Chagas ainda afeta 2 milhões de brasileiros
Por Leícia Lins e Alessandra Duarte

 RECIFE e NAZARÉ DA MATA (PE) - Exatos 101 anos após sua descoberta, a doença de Chagas ainda é uma ameaça que anda de mãos dadas com a pobreza e a desinformação. O Brasil recebeu da Organização Mundial de Saúde um certificado que atesta a interrupção da transmissão da doença de Chagas pelo seu principal vetor - o inseto popularmente conhecido como barbeiro (Triatoma infestans) -, mas não se livrou da enfermidade, que só tem chances de cura se tratada precocemente.

A incidência vem caindo, de acordo com estatísticas oficiais. O Ministério da Saúde aponta dois milhões de pessoas infectadas no país. Cientistas do setor estimam que o número chega a três milhões. E a infecção já não pode ser considerada apenas rural. Um trabalho subscrito por sete especialistas e divulgado em Pernambuco alerta para a urbanização da doença. Cerca de um milhão de contagiados reside na periferia de metrópoles como Recife, São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, o que levaria a uma epidemia urbana.

É o que revela o coordenador do estudo, Wilson de Oliveira Júnior, responsável pelo ambulatório de doença de Chagas e insuficiência cardíaca do Pronto Socorro do Coração/Hospital Oswaldo Cruz, entidades vinculadas à Universidade de Pernambuco (UPE), que acompanha 1.200 pacientes. Cerca de cinco mil pessoas morrem por ano devido a complicações cardíacas provocadas pela enfermidade.

Há 35 anos, o mesmo remédio

De acordo com o Ministério da Saúde, o certificado da OMS concedido em 2006 deveu-se a um trabalho de controle do barbeiro realizado desde a década de 1970. Foram colhidas cem mil amostras de sangue em crianças na zona rural, entre os anos de 2001 e 2008. Números preliminares indicam prevalência de 0,01%, conforme o boletim de abril do Ministério da Saúde.

- O percentual é positivo. Inquéritos da década de 1980 indicaram o problema, quando o Brasil tomou conhecimento de que 4,2% da população tinham a doença. Entre as crianças, a prevalência era maior, 18% - lembra o médico, professor de cardiologia da Faculdade de Ciências Médicas da UPE.

Ele lembra que, com o certificado internacional, fica a falsa impressão de que o Brasil livrou-se do mal de Chagas, incluído entre as chamadas doenças negligenciadas, que não despertam interesse dos laboratórios. O remédio contra a doença é o mesmo há 35 anos: o Benidazol, que tem efeitos colaterais grandes. Ele ataca o Tripanossoma cruzi, protozoário transmitido pelo barbeiro, mas não desperta interesse no setor farmacêutico: a multinacional que o produzia cedeu a patente para o Laboratório Farmacêutico de Pernambuco, hoje único a fornecer a droga para o mundo.

O presidente da Associação de Portadores de Doença de Chagas de Pernambuco, Manoel Mariano do Nascimento, de 63 anos, denuncia a falta de remédios auxiliares aos pacientes que têm o coração comprometido.

- O Benidazol, tem. Mas não precisamos só dele para ficarmos vivos - diz Nascimento.

O custo dos remédios para o coração chega a R$ 200 mensais. Sem os remédios, os pacientes terminam precisando de transplantes e marcapassos

- com sofrimento maior para o doente e custo adicional ao SUS.

Em Recife, internada no Hospital Oswaldo Cruz, Maria Vicente dos Santos, de 52 anos, perdeu três parentes para a doença. Só ela, contaminada, sobreviveu. Pernambuco ocupa o segundo lugar em número de portadores de doença de Chagas no país. Na região canavieira, a 70 quilômetros de Recife, Severina Maria da Silva, de 56 anos, perdeu o pai e o marido para a enfermidade. O filho, Luiz Carlos, de 26, tem a doença. Ela mesma relata cansa$ço e falta de ar, sintomas de insuficiência cardíaca que aparecem na fase crônica do mal. Mas reluta em fazer exames.

Sua casa tem chão de terra batida e paredes de barro com orifícios por toda parte, onde o barbeiro se esconde:

- Já vi potós (barbeiros) nas paredes, nas portas. Basta tocar nele, que está furando a gente, no quintal, no milho. Fui picada várias vezes.

No centro de Nazaré da Mata, Waldecir Vicente de Melo, de 48 anos, é portador da doença há 13. Com o coração frágil, desmaia, mas não quer se operar:

- Tenho medo de morrer na mesa de operação. Fico com meus remédios. Assim tenho mais três anos de vida.

Saúde é requisito para desenvolvimento econômico, diz especialista

RIO - Coordenador do Centro de Desenvolvimento Tecnológico em Saúde da Fiocruz e professor da Pós-Graduação em Políticas Públicas, Estratégias e Desenvolvimento da UFRJ, Carlos Morel já dirigiu o programa de pesquisa em doenças tropicais da Organização Mundial da Saúde, e chama atenção para o elo entre saúde e desenvolvimento econômico. Ele cita um relatório da OMS que aponta que a multiplicação de investimentos em saúde no mundo traria ganhos de US$ 360 bilhões por ano.


O que são doenças negligenciadas?

O termo começou a ser conhecido por volta de 2000, graças a dois relatórios, um dos Médicos Sem Fronteiras (MSF), outro da OMS. Eles propuseram as seguintes nomenclaturas: doenças globais ou tipo 1, que atingiriam a todos, inclusive os países ricos; doenças negligenciadas ou tipo 2, que, embora possam ocorrer no mundo todo, são mais frequentes ou graves nos países pobres; e doenças mais negligenciadas ou tipo 3, que só afetam os mais pobres, como leishmaniose, mal de Chagas... Pelo fato de as negligenciadas e mais negligenciadas atingirem países em que nem governo nem população têm dinheiro para comprar os remédios, a indústria farmacêutica não investe na pesquisa e na produção deles (a OMS chama de "Fosso 10/90" o fato de que menos de 10% dos fundos mundiais para pesquisa em saúde são para os problemas de saúde que são mais relevantes aos países em desenvolvimento e que representam 90% das doenças no mundo).


Quais os efeitos para os países com doenças negligenciadas?

Até dez anos atrás, havia simplesmente falta de perspectiva, no mundo, de surgimento de tratamento. Mas, por volta de 2001, começaram a surgir o que hoje chamamos de "parcerias para o desenvolvimento de produtos". Uma das primeiras foi criada em 2003 pelos MSF, com dinheiro do Nobel da Paz ganho por eles: a Drugs for Neglected Diseases Initiatives (DNDI), com participação de vários países. O Brasil participa, com a Fiocruz e o Instituto Pasteur.


Como são essas parcerias?

Governos e entidades filantrópicas entram com a verba, e as empresas farmacêuticas, com o know-how. E está dando certo. Os remédios estão começando a vir. A DNDI, por exemplo, desenvolveu um antimalárico em conjunto com a Fiocruz.


Além da falta de investimento da indústria, qual o peso das condições de vida para o agravamento dessas doenças?

Pobreza é um determinante social. Mas há três tipos de falha interferindo no processo: as falhas de ciência, as de mercado e as de sistema de saúde pública. As falhas de ciência ocorre quando a ciência ainda não descobriu cura ou vacina para a doença; se descobrissem uma vacina para leishmaniose tão potente quanto a da varíola, mesmo pessoas pobres ficariam imunes. A outra falha é a de mercado: existe o remédio, mas é caro, e às vezes a indústria não produz em larga escala se quem precisa não tem condições de comprar. Então, o Estado tem de distribuir. Já a falha de saúde pública é quando existe o remédio, não é caro, mas o sistema público não consegue distribuir a todos, por problemas de gestão ou por corrupção, por exemplo. É o caso de vacinas na África, ou da vacina contra pólio na Índia. No caso do Brasil, em relação a muitas doenças, como tuberculose e hanseníase, há as três falhas, é tudo junto.


Qual o impacto da existência de doenças em um país para o desenvolvimento dele?

Aquele relatório da OMS trata disso. A maioria dos economistas clássicos diz que a saúde de uma população melhora quando a economia melhora. Mas o que a OMS aponta é que a saúde não é só consequência do desenvolvimento: é um requisito para ele. Com saúde, vive-se mais, falta-se menos ao trabalho, ao estudo, então produz-se mais, e a economia ganha. Esse relatório mede isso. O dinheiro que seria gasto com doença pode ir para educação. Uma pessoa com malária fica pelo menos 15 dias de cama; já li que uma menina, no Norte do país, tinha sido reprovada na escola de tanto que faltava, por causa da malária. No Brasil, está havendo um movimento interessante: pesquisas sobre o conceito de "complexo industrial da saúde". Querem mostrar ao setor privado que saúde pode ser uma chance de negócio. Na balança comercial brasileira, o déficit do setor saúde é US$ 7 bilhões/ano. A gente importa demais, há aí demanda por novos negócios. O Brasil está querendo se desenvolver, mas esbarra na falta de muita coisa, como mão-de-obra qualificada para a área. Além da falta da própria saúde para a população.




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